27 julho 2010

Chamada de telemóvel

Telemóvel a vibrar…
Não pode fazer barulho para não ser um daqueles que utiliza o telemóvel para dizer que o tem.

Levanto o aparelho e atendo sem hesitar.
Do outro lado:
- Estou? Ainda bem que estás aí. Precisava ouvir-te. Queria tanto sentir que ainda me atendes e que não me esqueceste. Sabes que me lembro todos os dias daquele verão quente que passamos juntos.

(Começo a ficar intrigado)

- … Precisamos encontrar-nos. Tomar um café, conversar. Gostaria de voltar à fonte em Itália onde nos beijámos pela primeira vez. Que achas de terminarmos o percurso do México que deixámos a meio depois de teres caído no meio das ruínas? Ah, falando nisso, como ficaste do pé? Sei que a recuperação do pé partido é fácil e tu que precisas estar em condições para te manteres em pé nos patins.

(A minha cara era um enorme ponto de interrogação)

Ainda tentei: “Mas… q…”
(Não consegui continuar)

- … Ah, sabes, estou em pulgas para te dar o que consegui arranjar. Numa viagem que fiz, fui parar à concentração da tua equipa. Fiz um cartaz enorme e pedi a camisola ao teu ídolo. Vais adorar a camisola azul!!! Ainda muito me vais agradecer. Agora estou em Lisboa e de partida para o sul. Encontrámo-nos na tasquinha do costume em Cuba. Está um calor do pior mas acho que no final vai valer a pena encontrar-te no meio dos lençóis do quartinho que a Dona Clementina nos guarda todos os anos. Ah, como adoro aquele retiro. Acordar ao teu lado e ouvir os passarinhos…

(Se me queria ouvir, como é que ainda não parou de falar???)
(Mas estou a gostar)

De repente:
- Estou? Ainda estás aí?

Respondi:
- Sim,

Continuou:
- Desculpe! Com quem estou a falar?

Eu disse o meu nome e reparei que do outro lado da linha tudo havia corado…

Terminou:
- Peço imensa desculpa, foi engano.

Depois de “tuuuu, tuuuu, tuuuu”, pensei:
Nunca fui a Itália mas gostava.
México, só vi do avião quando tive a sorte de sobrevoar.
Partir o pé? Nunca me aconteceu.
O meu clube não veste de azul.
Tasquinha em Cuba? Só estive na terra dos charutos e em trânsito de tráfego internacional. D. Clementina faz-me lembra uma música da moda.

Que viagem em 5 minutos!
Por momentos, parece que vivi todas aquelas peripécias.
Nem tive tempo de dizer que tinha gostado que me ligasse e que podia ligar de vez em quando, faz bem ao ego.

Se estiveres aí, liga-me...

18 julho 2010

O meu problema (ou um dos...)

Não sei se é mecânico…
Se é eléctrico ou nervoso…
… o meu problema.

Sonhar com algo inalcançável.
Querer algo que não se pode ter.
Admirar aquelas capacidades.

Ainda por cima o teu carro tem uns travões melhores que os do meu.

18 junho 2010

Génio mas não tanto

Era um cientista brilhante
Fórmulas, equações, poções e soluções

Conseguiu que os macacos falassem,
Conseguiu produzir o número 5, da multiplicação de 2 por 2.
Conseguiu escrever a branco sobre a cal.

Fez andar paraplégicos,
Deu visão aos cegos,

Mas, apesar de toda a sapiência, o génio não conseguiu encontrar a fórmula mágica para juntar dois pares de lábios…

16 junho 2010

papel... químico

não sei,
sinto distância,
sinto ar frio,
gela-me o corpo.

o olhar não tem ligado.
não tem havido energia.
onde está?
era renovável a cada pensamento...

os sonhos continuam.
o cheiro dos gestos continua a passear em mim
a vontade de querer estar próximo também
mas... onde está?

onde está aquela palavra que explica
o estudo da maneira pela qual
os elementos se ligam e reagem entre si?
química, não fujas...

29 maio 2010

Prazer

Normalmente aliado a um bom prato,
… uma sobremesa,
… sexo,
… viajar ao infinito,
… o cheiro da maresia,
… deitar nos lençóis brancos numa cama acabada de fazer,
… saborear um café de Timor,
… ler um livro,
… caminhar na natureza,

NADA DISSO.

Prazer é gozar cada segundo com ela.
Quase um ano, sorriso único, olhar expressivo.

20 maio 2010

Reflexões sobre a vida

Durante uma vida, são 60, 70, 80 anos e, às vezes, até mais...
Quando um homem chega aos 70 anos, está capaz de viver a vida com experiência, começam a faltar as forças.
É injusto ter um prazo de validade em que no melhor do conteúdo, a embalagem deteriora-se.

17 maio 2010

No circo

Ilusões e desilusões,
Magia e tropeções.

Um mágico é um ilusionista que nos leva a pensar no que pode ser e não é.
Um trapezista, também tropeça e pode cair.

Jogos de cartas, baralhos com 5 “Ases”, anéis entrelaçados, coelhos na cartola.
Na corda bamba ou no trapézio, o desafio constante à gravidade.

Terá gravidade fazer magia? E iludir?
Cairá “realmente” quem não souber caminhar no fio… sem rede?

Já me iludi.
Vivo no trapézio mas tenho a rede lá em baixo, para além disso, tento caminhar… pé-ante-pé.

26 abril 2010

Menino a crescer… é sempre menino

Os meninos caem muito até ser homens.

Os primeiros passos são dados como se de uma aventura se trate.

Começa-se pelo equilíbrio, depois o levantar do pé.

Pé ante pé, os passos.

Sempre o desejo de alcançar mais, chegar mais longe,

Atingir objectivos.

Chegar até aqui e ali, ultrapassar obstáculos.

Hoje, esfarrapei um joelho.

25 abril 2010

A raiva de ser animal

Sinto raiva dos elefantes que não conseguem esquecer…

Sinto raiva dos camelos que percorrem desertos sem água…

Sinto raiva das crisálidas que se transformam em horas…

Sinto raiva… de não ser um destes animais.

Mas afinal… que animal sou eu?

14 fevereiro 2010

Ordens do Rei

No reino das longínquas terras das letras, o rei:

Ordenou que o carpinteiro deixasse de trabalhar a madeira,
... que o ferreiro deixasse de trabalhar na forja,
... que o bobo deixasse de fazer piadas,
... ainda que os escritores deixassem de escrever as peças para os teatros do reino.
Por fim, ordenou que EU deixasse de te amar.

Com estas medidas houve ajustes dentro das muralhas.
O ferreiro começou a fazer piadas, o carpinteiro trabalhou o ferro, os escritores passaram a escrever em tábuas de madeira e o bobo... bem, este foi dar de comer aos animais.
EU, escrevi este texto para te contar que desobedeci ao Rei, não o deixes ver estas palavras.