06 janeiro 2008

Voltei a apaixonar-me…

Voltaste a cruzar o teu olhar com o meu, então apaixonei-me.
Voltaste a ficar na minha retina, então ceguei.
Imaginei que o nosso reencontro seria intenso, mas não pensei voltar a sentir que já senti outrora.
Sabes como me falar, sabes como chegar a mim. Eu não tenho essa sorte, não consigo alcançar-te. Não sei se o queres. Não insistirei, digo eu.
Se calhar nestas linhas que escrevo, pensarás que já é uma insistência.
Será assim?
Será que estou só a escrever aquilo que não tenho coragem para te dizer?
Voltei à adolescência.
Não sei escrever, (se é que alguma vez soube) mesmo quando risco carvão sob o papel e até consigo formar as letras do teu nome.
Não sei como olhar para ti, quando me falas.
Não sei como reagir a um elogio que me fazes.
Isto acontece aos adolescentes. Má sorte a minha porque ainda o sou…
Gosto da forma como fazes de conta que duvidas de quem será a destinatária destas linhas. Dá-te um ar, um tanto ou quanto, de indiferença mas sei que o sabes.
Reconhecer-te-ás nas minhas palavras, com certeza, pois o teu nome está naquilo que lês.
Por vezes não tens paciência para estas coisas. Por vezes não estás para perder tempo com coisas de um jovem em busca de algo que nem ele saberá o que é.
Pois é, isto retrata bem aquilo que sou e o que escrevo aqui.
Sou alguém que escreve sobre a procura de um estado (de alma, de espírito, etc.) que está personificado na figura de uma mulher.
Mas…
Aquilo que procuro, não tem corpo… és tu.
Aquilo que procuro, não tem olhar... é o que vejo e não alcanço.
Aquilo que procuro, não tem forma de lá chegar… teus lábios.
Aquilo que procuro, será algo ou alguém? Não sei.
Tem o olhar expressivo da tua íris. É suave como a tua pele que nunca toquei.
O que procuro está personificado no corpo de uma mulher.
Essa mulher, és tu.

30 dezembro 2007

Livros… para oferecer?

Nesta época festiva, questionei-me sobre o “fenómeno” que ainda decorre quando compramos um livro.
Se compramos uma camisola, umas calças, um cachecol… na loja, dizem-nos o preço, entregam-nos o saco, dão-nos o recibo, “Muito obrigado” e pronto.
Se entrarmos num café e pedir-mos dois descafeinados mesmo estando sozinhos, não nos perguntam se o outro é para oferecer. Se pedimos dois sumos, devem pensar que temos muita sede ou virá alguém ter connosco.
Quando compramos um livro, é habitual perguntarem: “É para oferecer?”
Por que será?
Concordo que um livro é sempre um bom presente.
Para quem lê: um bom companheiro, para quem não lê, começando pelo livro certo, poderá ser a rampa de lançamento para o mundo fantástico da leitura / literatura.
Para mim, um livro é um bem tão essencial como a roupa. Podia dissertar sobre a necessidade da literatura, sobre o auxílio à cultura de cada um, para o enriquecimento do conhecimento e do vocabulário, podia falar sobre a necessidade bibliófila de ler ou de ter um livro, podia falar das histórias mais ou menos fantásticas, mais ou menos reais que nos prendem enquanto temos um livro na mesa-de-cabeceira. Mas não, escrevo simplesmente que, para mim, o livro é um bem essencial.
Vejamos, trabalho com livros: dá-me prazer, salário, etc.; leio um livro: tenho uma história, posso ter uma experiência, posso sentir-me (ou não) ligado àquela história ou a uma personagem presente; não sei o que hei-de oferecer porque o meu amigo não gosta de roupa vermelha, não sei o tamanho que veste, não conheço os gostos clubistas, enfim, se eu escolher um bom livro, gostará com certeza.
Será que a pergunta quase inevitável nalgumas livrarias “É para oferecer?” é resultado de um país como o meu?
Será que, por estarmos habituados a estudos e mais estudos que nos vendem a dizer que o meu país lê pouco, isso nos influencia de tal forma que quando vemos alguém comprar um livro, pensamos que não é um bem para o mesmo consumir mas antes um bem para oferecer?
Quando comprar um livro e me perguntarem se é para oferecer, vou responder:
“Não, é para consumir.”

O que me interessa realmente é que consumam, usem, ofereçam, sirvam como companhia, durmam com eles no pensamento, mas… leiam livros.

Procuro-te

Onde andas? Onde estás?
Desencontros…
Pego no telemóvel para te ligar, não atendes.
Vejo que me ligas mas não consigo atender.
Nem a tecnologia nos ajuda.
Caminho pela rua sempre em busca de alguém como tu. Será que busco “alguém”? Não, procuro-TE.
Finalmente falámos!!!
Estava com saudades da tua voz, mas ainda tenho saudades do teu olhar.
Na verdade, estou com saudades desde o momento que me despedi de ti.
Posso estar contigo todos os dias, posso falar-te todos os dias, mas a verdade é que sinto a tua falta assim que nos separamos.
Não sei se alguma vez te toquei de forma que não me esqueças. Gostava que te lembrasses de mim, gostava que sentisses a minha falta. Egoísmo ou presunção? Já aqui te escrevi que sou um egoísta no que ao teu interior diz respeito. Presunção… gosto de mim e gosto que gostem de mim… não será isto presunção…
Como te encontro? É essa a pergunta que tenho no pensamento…
Como posso ver o interior de ti?
Estarás a pensar que desejo mais do que eu realmente posso ter. Não quero os teus segredos, não quero o teu espaço, não quero monopolizar-te o pensamento.
Só quero poder chegar até ao teu interior, ter o meu espaço dentro do teu…
Tenho saudades…
Normalmente temos saudades daquilo que alguma vez já tivemos, sentimos a falta do que alguma vez já possuímos…
Eu tenho… saudades da tua parte que nunca tive… sinto a falta daquilo que é teu e que nunca possuí…
Neste tempo de proximidade, paradoxo… onde estás? Não sei mas estás longe…
Procuro-te…

28 dezembro 2007

Mais um Natal que passou…

A festa “religiosa” que nasceu de um prenúncio pagão.
Aquilo que hoje é a festa natura de Jesus é, afinal, o evento religioso que foi gerado pela chegada do solstício.
A vinda da luz ou a viragem dos dias pequenos para os dias grandes foi o motivo pelo qual a religião ligou este momento ao nascimento de Jesus.
Natal: tempo de luz (iluminações de Natal a consumir enormidades de energia depois de campanhas de sensibilização para poupança da mesma em tempos de contenção), tempo de doces (e dos donos dos ginásios a esfregar as mãos de contente), tempo de consumismo (quando na realidade o que interessaria era, dar (sentimentos) sem esperar receber), tempo de mensagens iguais para os colegas de trabalho, colegas do ginásio, colegas da associação, etc, mas tempo de criar uns sms personalizados para os amigos ou então deixar este tempo passar, pois os amigos são de todo o ano e não de uma só época.
Por falar em consumismo, o Pai Natal (figura incontornável desta época) tem uma imagem criada pela Coco-Cola. O senhor vestido de vermelho com barbas brancas e uns óculos que dão a sensação de ser avô, foi criado como produto de marketing da marca mais bebida no mundo inteiro.
Agora pergunto: se no resto do ano também há Coca-Cola, por que razão não há também o espírito de harmonia que se vende em Dezembro?
Natal é também tempo de tradições. No norte e no país em geral: o tradicional bacalhau com batatas, no sul: o peru. Os doces, rabanadas, sonhos, bolo-rei, frutos secos, etc.
Natal é tempo das pessoas pensarem que só há doentes nesta altura do ano, Natal é tempo de pensarem que vamos fazer bem aos desprotegidos, é tempo de dar aos pobres porque nesta altura eles precisam…
Pensemos bem nas nossas atitudes!!!
Será que, em Janeiro, no dia 6, dia de Reis e dia em que se encerram as festividades, deixará de haver pobres? Deixará de haver desprotegidos? Deixará de haver bondade?
Nesta altura do ano até se faz cessar-fogo nas maiores guerras do mundo. As guerras capitalistas baixam arsenais, as guerras do petróleo (mesmo mantendo os altos preços) baixam a agressividade.
Vamos deixar que estes sentimentos se mantenham no resto do ano.
Natal é tempo de família. No resto do ano não lhe damos valor?
Podemos passar longos períodos sem vermos a família mas sabemos que podemos contar com ela sempre que precisarmos. Sabemos que passamos mais tempo com os colegas do trabalho, da escola, com os vizinhos, mas também sabemos que a família não escolhemos, é a nossa família e estará lá sempre que precisarmos.
“Natal é quando um homem quer…”
Mas por que será que o homem não quer mais vezes ou não quer durante todo o ano?

03 dezembro 2007

Conto de Natal (I)

Maria pedia na rua para poder ter, pelo menos, uma refeição quente por dia. Sete anos e já era independente. Não dependia de nada nem de ninguém para decidir por onde caminhava a que horas se levantava, que roupa vestia. Tinha uma explicação: há dois anos foi abandonada pela mãe. Há dois anos passava os dias com ela na rua. Eram dependentes uma da outra. Há dois anos elas eram uma família a duas. Mãe e filha. Há dois anos Maria tinha uma mãe que lhe apertava a roupa nas noites frias do Inverno. Há dois anos, Maria partilhava a mesma sopa com a mãe.
Porque foi abandonada, Maria não sabia explicar mas não culpava a mãe.
A mãe tinha sintomas de uma doença grave e pensou entregá-la num abrigo para crianças. No dia em que faleceu, há dois anos, sem forças para caminhar, pediu a Maria que lhe fosse buscar algo quente. Pediu para trazer ajuda e antes de se despedir, disse que a amava.
Maria, então com cinco anos, correu para pedir ajuda para sua mãe. Por mais rápida que chegasse a ajuda, Maria nunca chegaria a tempo de salvar a sua mãe, tinha falecido assim que se separaram.
Não deixaram que Maria visse o adormecer de quem a trouxe ao mundo. Desde então, a menina pedia na rua. Nesta altura Maria enchia-se de luz. Os seus olhos brilhavam com as iluminações de Natal.
Como nunca tinha tido um presente de Natal, Maria não percebia o que significava a imensidão de sacos que toda a gente transportava nesta altura do ano.
Pensava que cada saco levava uma luzinha para colocar no pinheiro. Quem mais sacos leva, mais luzes tem no pinheiro.
À noite, Maria tinha a companhia do presépio da cidade para dormir. Aconchegava-se no meio das figuras dos animais. Por detrás do burro e da vaca estava o calor que a mantinha viva – era a família que nunca tinha tido.
Na véspera de Natal, Maria sentia muito frio e quando estava prestes a adormecer, foi visitada por uma luz que a aqueceu. Maria não teve medo e pediu, sem hesitar, o seu melhor presente de Natal.
Maria não queria uma boneca, não queria riqueza, não queria ter muita coisa; Maria pediu para voltar a ver a mãe e, se lhe fosse permitido, poder colocar uma luz no pinheiro com a ajuda dela.
A luz que pairava sobre ela, levantou em direcção ao céu deixando um rasto brilhante.
Na manhã seguinte o presépio tinha vida, Maria tinha realizado o seu sonho. A menina que pedia na rua tinha dado vida ao menino da manjedoura.
O pinheiro de Natal tinha mais uma luz (a mais luminosa de todas), Maria acendeu-a com ajuda da sua mãe.

02 dezembro 2007

100 título (I)

Banco de jardim na praça onde moras. Os sinos da igreja que existe aqui perto, fazem soar duas badaladas e a lua está bem por cima de mim neste tecto de estrelas.
Um mendigo cobre-se com jornais nesta noite fria de Dezembro. Ele olha-me desconfiado sem saber o que faço eu, bem agasalhado, sentado junto ao coreto. Podia meter conversa, podia pedir-lhe um trago de bagaço que está na garrafa que tanto lhe serve de almofada, como de companhia, como também de fornalha. Tento pensar no quente que estaria dentro de uma sala com lareira que não tenho.
Que loucuras cometo, a sonhar com o momento em que vais abrir-me a porta para eu entrar.
À minha volta, candeeiros que fazem sombras atrás das árvores, o coreto onde ao domingo se fazem os concertos da banda filarmónica, os bancos de jardim onde aprendi a namorar. Naquele onde está o mendigo, escrevi o meu nome e adicionei-o ao teu. Sei que não sabes disso mas, um jovem apaixonado como eu, publicava seus amores riscando num banco de jardim. Hoje escrevo para ti, olho-te com expressividade e sei que por vezes me lês (o olhar e os meus escritos).
Estou mesmo esperançado que um dia abrirás a porta e me convidarás para entrar, não só na tua casa, como também no teu mundo.
De quando em vez, fixo os olhos na janela do teu quarto na esperança que sintas algo que te faça vir tomar esta brisa fresca e veres-me como alguém sempre presente. No fundo, sei que já não moras aí, sei que não virás ver-me, sei que não poderás abrir-me a porta do teu mundo mas sabes que continuarei aqui a fazer companhia ao mendigo.

13 novembro 2007

Se eu não (te) visse

Sentiria o teu cheiro em vez de conhecer o teu olhar,
Saberia de que alegrias é feito o teu dia pelo tom da tua voz,
Poderia tocar cada palavra que me dizes com tacto subtil,
Leria os teus lábios com as pontas dos meus dedos,
Mas beijar-te-ia com todo(s) o(s) sentidos…

06 novembro 2007

Escrita = Liberdade

Muitas pessoas escrevem, mas quantas sabem realmente escrever? O que um escritor faz, é colocar a palavra em liberdade. Eu não tenho esse dom. As palavras que escrevo estão presas a mim e o que faço, é soltá-las. Se elas são, a partir daqui, livres… não sei.
Um dia quando alguém me ler, se isso acontecer, então saberei se as palavras tomaram o prazer da liberdade.
De uma coisa estou certo: sou livre quando me prendo à escrita.

05 novembro 2007

Valor

Há uns dias pus-me a pensar na palavra valor. Eu defendo valores, eu tenho os meus valores, existe uma bolsa de valores, os jovens perguntam na escola “quantos valores tiveste no exame?”, esta ou aquela pessoa têm determinado valor para mim, as coisas têm valor, as casas são vendidas por valores muito acima do que realmente valem devido à especulação imobiliária.
As coisas têm valor palpável e as pessoas têm valor sentimental.
Esta premissa não será assim tão válida dentro dos meus valores. Senão, vejamos a minha perspectiva.
As coisas que o meu avô me deixou, têm muito mais valor do que os valores que algumas pessoas defendem. Por outro lado, há pessoas que valem aquilo que produzem – têm valor monetário, material. Outros têm o valor das cores que defendem.
Eu gosto de defender valores, eu gosto de me identificar com eles.
E eu? Quanto valho eu no mundo?
Tenho o meu valor. Sem falsas modéstias não me sinto menos do que os outros em termos de valor pessoal, também não me sinto mais do que outros demais indivíduos. Andamos no meio de uma multidão sem valor por si só mas que circula em torno disso mesmo, valores. Uns buscam os monetários, outros, a defesa dos próprios. Outros há, que não os têm.
As pessoas que defendem valores têm personalidade. Por vezes, temos de deixar o nosso orgulho de parte para podermos viver em sociedade mas não gosto que coloquem em causa os meus valores em função de algo que quero atingir.
Quanto vale um pedaço de papel com uma inscrição? Um escrito de um grande das letras pode valer muito para uns e não ser mais do que um guardanapo rasurado para outros. Uma nota pode ser a porta de acesso a mais um bem ou pode não ter qualquer valor para quem necessita de outro tipo de valor.
Posso estar só no meio de uma multidão, assim como posso ser pobre no meio da toda a riqueza. Os novos-ricos, assim não pensam.
O meu bem mais precioso é a vida. Há dias, soube de um livro que foi lançado sob o título: “ninguém morre duas vezes”, eu tive a sorte de “nascer duas vezes”.
Que valor tem este texto? O valor de cinco minutos que demorei a escrever.
E para ti, que valor tenho?

02 novembro 2007

Sociedade Gepetto

Vivemos hoje numa sociedade com toda a pomposidade dos nomes que lhe dão: Sociedade da Informação, Sociedade livre, Sociedade para Todos, etc, etc, etc… que nos faz pensar que somos livres.
Será que é mesmo uma sociedade livre ou será uma sociedade controladora de tudo e de todos?
Alguma da generosidade que vemos hoje em dia, é o resultado da vontade de controlar.
Há muito tempo atrás, por altura das terras feudais, um homem muito rico que detinha terras e terras onde trabalhavam aldeias inteiras, percebeu que as pessoas perdiam algum do seu tempo e despendiam muitas energias no final de um dia de trabalho para irem ao rio buscar água para suas casas. Certo dia, decidiu construir um poço no meio do seu feudo para que as pessoas pudessem abastecer-se de água. Para acrescentar a este acto mais um pormenor de generosidade, permitiu que os seus subordinados fossem buscar água durante uma hora no decorrer do dia de trabalho. A única medida de ordem que tomou foi colocar um dos seus homens a manter a disciplina no poço pois iria muita gente buscar água.
A ideia agradou a todos e o acto generoso foi falado para além dos seus feudos. O assunto aumentou os créditos de tão nobre senhor.
Durante largos meses o povo sentiu-se agradado mas, a certa altura, alguns deles começaram a deixar de ir ao poço. Rapidamente, esta atitude da população chegou aos ouvidos do Senhor feudal.
Desagradado com o afastamento do poço decidiu mandar investigar esta nova tendência e recusa da população em relação à sua generosidade.
Durante anos e anos, a população encontrava-se, no final do dia, junto ao rio, para poder pôr a conversa em dia, para se distrair e para se divertir fazendo as trocas directas dos seus bens. Com a criação do poço, a população não tinha muito tempo para conversar e mesmo que o fizessem, tinham a “companhia” do guarda do poço. Perderam a possibilidade de conversar, de se divertirem e, principalmente, de exprimirem opiniões.
O poço de generosidade que era o Senhor feudal tinha-se tornado no poço que lhes dava água mas que lhes tirava liberdade.
Um acto de generosidade que tinha como principal objectivo, o controlo de uma comunidade.
A sociedade de hoje, cria, transforma e controla os movimentos de todos os elementos mesmo quando nos parece que tem gestos de generosidade. Somos o Pinóquio nas mãos de um Gepetto mau. Cada ligação a um espaço, a um emprego, a uma organização, cada adereço de tempo que nos marca o ritmo, são como que as guias de uma marioneta de madeira frágil ou forte conforme a firmeza dos tecidos que constituem cada um de nós mas que nos “levam” por caminhos já traçados.